quarta-feira, 21 de março de 2007

Realidade e ficção: onde começa uma e termina a outra?


Abaixo, eu postarei uma crônica escrita para um amigo meu, jornalista, que seria publicada numa revista de Brasília. Era para relatar a relação ficção x realidade exibida na telenovela VALE TUDO, do meu querido Gilberto Braga, exibida em 1988 pela TV Globo. Por ironia do destino, não foi difícil escrever a crônica, uma vez que tenho, por esta obra teledramatúrgica, um imenso respeito, pois não se trata de uma simples telenovela, mas sim, de um Brasil exposto numa obra de ficção, num período em que o próprio país se redescobria, com o fim da Ditadura Militar, em 1984.
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E o vale-tudo continua!

“Princípio. Honra. Dignidade. Valores que podem se perder na batalha pela vida?”. Lançando mão de uma simples pergunta, Gilberto Braga colocou a ética em xeque, ao discutir problemas sociais jamais mostrados numa telenovela. E o que foi mostrado – corrupção, remessa ilegal de dólares para o exterior, alpinismo social, alcoolismo, homossexualismo, entre outros – suplantou os limites do que era considerado “ficção”. A eterna luta do bem contra o mal era traduzida pela incompatibilidade de personalidades de mãe e filha, Raquel e Maria de Fátima, respectivamente. A primeira, simplória, acreditava que valia a pena ser honesto no Brasil. A segunda, por meio de uma ideologia torta, porém, de certa forma lógica, mostrou o que víamos em 1988, e o que ainda vemos e o que ainda veremos: a honestidade é apenas um substantivo abstrato. Nada mais.


A novela não só retratava os valores sociais, como fazia o povo refletir. E, mais do que isso, tinha o poder de debater nossos problemas àquela época, mas que nos dias de hoje, continuam muito atuais. Era difícil saber se assistíamos a um capítulo de novela ou um noticiário, pois nunca realidade e ficção foram tão próximas numa novela.
Uma novela pode ter, sim, uma forte contribuição social. VALE TUDO foi a pioneira ao relatar o drama do alcoolismo com maior densidade, transposto pela personagem Heleninha Roitmann, que foi buscar ajuda nos Alcoólicos Anônimos (“AA”), o que também ajudou vários brasileiros que passavam pelo mesmo problema.
O simbolismo da impunidade foi retratado pelo corrupto Marco Aurélio, ao dar uma “banana” com as mãos para tudo e todos. A imagem marcou e definiu o tipo de mentalidade que alguns brasileiros têm, quando levam a sério a “Lei do Gérson”, onde “temos de levar vantagem em tudo”.

Por tudo isso, a conclusão que tiramos é que o duelo honestidade x corrupção sempre vai existir. Ilusão é acharmos que “amanhã é um novo dia”. É um novo dia no calendário, não na realidade. Seremos sempre Marias de Fátimas e Raquéis, num duelo interno, que sempre nos questionaremos: vale a pena sermos honestos?
E a resposta para a pergunta acima? Evidentemente que não temos, nem teremos. Os fatores externos nos pressionam para a eterna dúvida. Não que isso seja uma deformação de caráter, mas sim, uma cultura difundida desde que nascemos. E, enquanto vivermos, veremos o Brasil, seja na novela ou no noticiário, passar na TV e mostrar a sua cara.

Eduardo Nassife, Rio de Janeiro, 29 de abril de 2006.

Um comentário:

Flávio Michelazzo disse...

Acho que o melhor pra sobreviver a essa guerra que é nosso país é ficar no meio-termo entre Maria de Fátima e Raquel amigo, fazer o que né?
abração e parabéns pelo blog!